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terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

Eu vou te ensinar todas as paradas


Não me lembro se foi exatamente essa frase, mas foi algo nessa estrutura que a personagem Acerola interpretado pelo ator Douglas Silva na série Cidade dos Homens fala ao ver pela primeira vez seu filho recém nascido. Eu vou te ensinar todas as paradas. Eu acho esta frase genial, pois seria uma das missões (ou tarefas) de ser pai, transmitir o que você sabe para a próxima geração. Uma das características que nos diferenciam de outras espécies é a transmissão de conhecimento. Não é que outras espécies não ensinam como caçar, mas nós, além de ensinar, podemos transmitir as histórias das nossas primeiras caçadas, o que torna a passagem de conhecimento uma história da família, que muitas vezes podem ser transmitidas aos netos.

Caçar foi apenas um exemplo alegórico, pois podemos ensinar qualquer “parada” qualquer vivência que tivemos em nossa história é passível de ser transmitida, não apenas o prático e laboral, mas também o lúdico e o emocionalmente experienciado. Ao longo de uma vida introjetamos diversos saberes, que se não forem passados adiante podem se perder para as próximas gerações, como se prepara um café com canela, como limpar um ventilador de teto, como se troca de roupa deitado. Quis dar exemplos aleatórios e muitos simplistas, para não direcionar o que se deve ser transmitido, pois tudo é válido.

E para que serve transmitir o que você sabe se todo o conhecimento possível já está na internet? Bem, na verdade, isso é uma falácia, pois o conhecimento particular, vivências e emoções daquele conhecimento só podem ser transmitidos diretamente. E mesmo que ele possa ser encontrado na internet, você pode discordar de mim, essa ponte que conecta gerações é criada e mantida nesse transmitir saberes. Sempre falo isso, não deixe que os outros façam o papel que você pode interpretar. Conectar o seu passado, com o presente dos dois para o futuro dele é possível ensinando as “paradas”.

Além disso, nunca se sabe o bastante e podemos aprender cada vez mais. É um continuum para que aquilo não se perca, além do mais, um dia ele poderá te ajudar, ou na pior das hipóteses, você pode não estar mais aqui, e ele vai ter de se virar para aprender.

Não existe uma técnica infalível para eu recomendar para transmitir o conhecimento até porque cada conhecimento é muito específico, vou exemplificar com duas tarefas práticas ao mesmo tempo: fazer um arroz e trocar um pneu, parecem dois exemplos muito diferentes, mas ambos tem um começo, meio e fim, ambos são úteis, fáceis de serem executados, mas necessitam de atenção e prática, e piadas a parte, ambos eu demoro o mesmo tempo para fazer. Eu recomendo que primeiramente a criança esteja por perto observando o que está sendo feito, em um segundo momento você irá executar a tarefa narrando o que está sendo feito, demonstrando as ferramentas e utensílios, no terceiro momento deixe que ele te ajude executando alguma parte da tarefa (descascando o alho ou pegando o macaco) e por último, dependendo da idade do filho e da confiança que ambos tem, deixe ele executar com a sua observação. Agora emule isso em outros exemplos que fazem parte de sua história e transmita para seus filhos.

terça-feira, 18 de junho de 2024

Quando o filho quebra o braço e você se sente um bosta

 


Quando o filho quebra o braço e você se sente um bosta


Filho doente, ou com perna/braço fraturado, febril, em fim, tem aqueles dias que seu filho esta se sentindo mal, vomitando, ou caiu e você não conseguiu correr a tempo para apará-lo. Tem horas que nos sentimos tão impotentes e parece que o mundo esta conspirando contra nós e não há nada que possamos fazer para reverter esse quadro. Seu pequeno tesouro esta chocho, ele olha pra você pedindo ajuda. Vocês correm para o hospital e não importa se o serviço é público ou particular o atendimento é péssimo e os diagnósticos são evasivos. 


“Deve ser isso”, “pode ser aquilo” , “é VIROSE!”.


E as fraturas das crianças? Às vezes achamos que se tivéssemos falado algo para nossos filhos não teria acontecido o incidente, ou se tivéssemos agido como um “ninjas” o filho estaria bem. Creio que esse pensamento está muito enraizado na “crença” do efeito borboleta. Causa e efeito, como se pudéssemos evitar tais acidentes. Mas o fato é que acidentes acontecem, podemos tentar diminuir suas probabilidades, mas nunca zerar as chances que isso ocorra.


Então nesse caso o melhor conselho que posso dar é que (se possível) paguem um bom plano de saúde. Sempre falo isso para minha esposa, afinal se não dá pra evitar acidentes, que pelo menos a passagem por ele seja num quarto bem confortável.  Mas também creio que não podemos nos cobrar tanto e sermos superprotetores a exposições de riscos cotidianos, o Pediatra Flávio Melo afirma que: 


“Ficamos tão neuróticos com limpeza que acabamos diminuindo nossa exposição à importante Vitamina S (de Sujeira). Ela nos faz mais resistentes à doenças, melhorando nosso sistema imunológico desde o momento que nascemos.”


A fala deste pediatra também é válida para lesões corporais, querendo ou não, assim como acontece em outras espécies,  nossos filhotes aprenderão com tentativas e erros. Por isso, crianças, usem o capacete (e outros EPIs), mas estejam preparados para as escoriações do mesmo jeito.


Só lembrando que escrevi esse texto em terceira pessoa, ou seja, racionalmente eu sei ponderar sobre tais assuntos, mas no “vamo vê”, muitas vezes me sinto menos pai, então você está no seu direito de arrancar os cabelos (se quiser), ter um ataque de pelanca (se desejar), e está tudo bem, só é ineficiente, geralmente nestas horas consigo manter a calma e não me desesperar principalmente para não deixar minha esposa, nem meu filho mais nervosos, então consigo ter essa atitude, conseguindo ficar me  mordendo por dentro, porém sereno por fora, é preciso praticar, a propósito, eu também uso esta técnica para ir em parques de diversão como ele, pois morro de medo de muitos brinquedos altos, mas vou de boa para incentivá-lo.



terça-feira, 28 de novembro de 2023

Você vai errar, e MUITO


Você vai errar, e MUITO

Será que você está preparado para seus erros e falhas? Como você reagia com os erros dos seus pais? Percebo, num modo geral, que a sociedade não aceita muito bem o que é falho e busca incessantemente a perfeição, mesmo que ela seja reconhecida como utópica, mesmo assim, ela é um norte a ser almejado.

“Errar é humano” é uma frase que faz todo sentido, erramos de forma rude em parte porque criamos nossas verdades em cima de nossas experiências. Claro que por isso existe um ponto positivo, pois errar está no bojo da aprendizagem, afinal aprendemos de forma muito mais eficiente experienciando do que se fosse de outras formas. E para aprender precisamos levar muitos tombos. Criamos calos, cicatrizes e outras marcas que nos fazem aprimorarmos a cada dia. Na animação A Família do Futuro (no original Meet the Robinsons) sempre que um membro da família errava, havia uma comemoração para isso, pois para cada erro realizado, se ficava mais próximo de acertar finalmente.

Só existe um pequeno detalhe a ser ressaltado; é que na prática as coisas não funcionam tão bem assim, pois para nossos filhos, o “errar” é impossível... corrigindo... Para nossos filhos, estamos isentos e acima de qualquer falhas. Só que independente das crenças que carregam, vamos pisar na bola e nesse momento se torna uma grande decepção, quando seu herói favorito se torna tão frágil, quanto qualquer outro mortal. E conforme passam os anos, não importa quantas vezes eles já viram nossas falhas, ainda assim será como se fosse a primeira vez.

Outro exemplo que pensei, já viu como nossos filhos acham graça quando brincamos de ser fracos, tropeçar e outras falhas? A graça vem do absurdo de algo ser verdadeiro, pois “Como assim meu pai não consegue levantar isso? Ele é o cara mais forte do mundo!”. Mas, uma coisa é brincar de ser falho, a outra é assumir nossas próprias pequenezas.

Então o que fazer? Será que a resposta é mentir para seus filhos? Que tal: erre, mas escondido? Ou floreie suas falhas? Na minha humilde opinião apenas: ERRE , erre de forma magistral e completamente errada. Existem alguns motivos para eu ter essa opinião.

Primeiramente você ainda tem o direito de errar, antes de mais nada, você é apenas uma pessoa suscetível a falhas. Logo não adianta ficar se angustiando por algo que não podemos controlar que é a nossa própria imperfeição. Então, aceite que você é falho e seu filho precisa saber disso.

Desculpe a franqueza, mas não estamos aqui para inventar um mundo de fantasias para os nossos filhos. Seja um exemplo pra ele, não de alguém que não possa errar, mas de alguém que erra, e que assume os próprios erros, tenta convertê-los ou superá-los.

Ele tem que aprender que você é uma pessoa e por isso você tem o direito de tropeçar, chorar e até cair. O mundo já está cheio de fórmulas mágicas de sucesso que muitas vezes só nos deixam mais deprimidos, por serem inalcançáveis, e ele precisa saber que esta tudo bem ser assim e que não há uma cobrança para que ele seja perfeito. Ou será que tem?

Rio de Janeiro 14 de Janeiro de 2020.

Tiago André Marques Malta
CRP: 05/38560
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terça-feira, 5 de setembro de 2023

Atenção, tensão e tesão

 Atenção, tensão e tesão  


Retomei um termo apresentado no texto “Essa responsabilidade é minha também” e desta vez resolvi apresentá-los como 3 pilares para moldar o olhar que nós pais deveríamos ter em relação aos nossos filhos, este ensaio é calcado dentro de uma perspectiva holística, afinal, se não somos uma ilha o que dirá nossos filhos que estão cada vez mais conectados com o universo. Essa reflexão sobre o olhar ativo  e consciente resume como devemos ser responsivos, porém, sem perder o prazer no que esta sendo feito e acontecendo no agora, creio que esta atitude também será útil para outras esferas cotidianas, aqui tentarei ser o mais diretivo dentro da psicologia parental, mas quem sabe num futuro eu expanda em outras esferas que eu imagino que seja aplicada esses pilares.


Atenção é por definição o “direcionamento da consciência e estado de concentração mental sobre determinado objeto”, Mas aqui eu pretendo que objeto que precisa de concentração diretiva é o seu universo, sim, é o sinal amarelo, seu filho precisa de você. Ele precisa que você não apenas o sustente, mas que o perceba em sua totalidade, como um indivíduo, afinal, ele não é uma extensão de você, nem uma projeção para aquilo que você deseja como projeto de vida. Mas alguém que possui suas próprias expectativas futuras e presentes. Esteja sempre atento ao que está por vir, pois ter um filho é uma descoberta contínua, e eu te aconselho estar por perto quando ele precisar. É como o lema dos escoteiros “sempre alerta”. Para concluir e puxar o gancho para o próximo parágrafo transcrevo  a definição Frederick Perls em seu livro EGO, FOME E AGRESSÃO: “atenção  significa que uma tensão é dirigida a um objeto. “


Tensão - Sim, você irá se preocupar com eles, pelo menos eu espero que isso aconteça. Dizem que o sono dos pais só se recupera após seis anos de nascimento do bebê, não sei se a matemática está certa, mas sei que o nosso estado de vigília aumenta e provavelmente isso seja instintivo. O fato é, se preocupe, você não vai querer que seu filho vá se dar mal na vida né? E você provavelmente irá tentar cavar algumas vitórias para ele, mas no melhor dos casos você assistirá a jornada dele no camarote ou no banco do carona, como um expectador, um torcedor vibrando pelo seu filho, e se preocupando com suas muitas quedas que estarão por vir, afinal a vida taí para nos bandar e nos “ensinar” a se reerguer sempre. Ainda citando Perls no mesmo livro “para a gratificação real, é necessária certa quantidade de tensão” ,ou seja , sem tensão não há tesão. 


Tesão - falamos do nosso estado de vigília, e de forma superficial de nosso papel de cuidador, além do peso que carregamos com ele. Mas para que isso ocorra se tornando uma boa experiência ainda falta um último elemento: Tesão. Sim, antes de mais nada há muita alegria e satisfação em ser pai, é um prazer descomunal ser pai, e acho que você sabe do que eu estou falando. E se não sabe leia o parágrafo a seguir:


Devemos assumir nosso papel, nossa paternidade, não para ficar bem no círculo de amigos, nem para ganhar pontos com a esposa, e muito menos para tirar boas fotos para postar. Devemos assumir esse papel, pois ele é muito satisfatório, ser pai, cuidar de outros, ser uma referência é emocionante, é até naqueles momentos que é necessário que você tenha uma atenção concentrada e que tencione suas entranhas de tanta preocupação, mesmo assim, faça com muito tesão pela vida que segue. Não faça apenas por fazer, encontre o motivo certo que te faça levantar da cama antes deles e que faça você dormir só depois que eles adormeçam e achar esse motivo será uma autodescoberta.


OBS 1: O estudo que comprova que os pais dormem mal nos primeiros 6 anos de seus filhos foi escrito pela doutora Dr Sakari Lemola e publicado em fevereiro de 2019 na Revista Científica Sleep. E foi baseado em sua pesquisa na Universidade de Warwick.


"Embora ter filhos seja uma grande fonte de alegria para a maioria dos pais, as exigências e responsabilidades associadas a esse papel levam a um sono mais curto e a uma menor qualidade do sono até seis anos após o nascimento do primeiro filho"


OBS 2: Quando eu falo no texto acima “no melhor dos casos você assistirá a jornada dele no camarote ou no banco do carona” e que em muitas situações podemos não mais existir, então prepare o caminho pra ele, aprenda a lidar com a sua finitude.


Obs 3: Quando falo de tesão, não há um contexto sexual, como diria Kika Gama Lobo “Tesão não sexual, mas tesão pela existência”.


Rio de Janeiro 23 de dezembro de 2019.


segunda-feira, 26 de setembro de 2022

Não ame seus filhos de Forma Igual

Não ame seus filhos de Forma Igual

            Somos cobrados para exercermos nossa individualidade  em várias fases de nossas vidas. Desde a customização de um uniforme, como se portar em uma entrevista, e afins. E ao mesmo tempo aprendemos a não se comportar da mesma forma em ambientes diferentes, tendo uma atitude no emprego e outra no lazer. E na esfera parental, será que essa regra também se aplica?


Provavelmente este seja o texto que eu mais entre de orelha para escrever, visto que por hora sou pai apenas de uma criança. Mas como irmão do meio posso também dar meus pitacos, pois essa frase sempre me incomodou “Amo meus filhos da mesma forma”. Como amar da mesma forma, indivíduos singulares que pensam e agem de formas diferentes?  E depois de quase 30 anos de existência, finalmente eu comecei a conhecer pais e mães que têm coragem de falar que amam seus filhos de formas diferentes. Não sei se cabe aqui a reflexão de que pais precisam ser francos neste sentido com seus filhos, isso é de cada um, mas essa tomada de consciência é importantíssimo para que não se sintam um monstro, caso prefiram a companhia de um filho ou de outro. Você prefere fulano ou ciclano? Está tudo bem, estamos falando aqui de pessoas interagindo com pessoas, seus filhos não são iguais, e é provável que nem queiram ser pessoas iguais  e  precisam exercitar esta individualidade


Partindo do princípio que seus filhos são pessoas diferentes, eu creio que posso afirmar: Ame-os seus filhos de forma diferente, eles não são uma coisa produzida em série, e o que você acerta com um, não há como prever se acertará com o outro. E isso já fica uma boa dica caso o seu segundo ou terceiro filho esteja chegando, lembre-se que vai ser uma experiência singular, não é só mais uma criança, ele é um ser único no universo, que terá características e expectativas únicas sobre você e sobre o mundo. Então baixe a bola do achismo não dando espaço para a ansiedade, pois se com o primeiro filho foi fácil a experiência, isso não significa que no segundo também será, mas também não fique tão apreensiva caso tenha sido um calvário com o primogênito, pois isso não significa que a experiência se repetirá. E por favor, quando estiver lendo isso, deixe o maniqueísmo de lado, não estou falando de bom e mau, mas sim de saúde, atitudes, dificuldade de dormir, comportamentos alimentares. Tudo pode ser uma experiência única. Por isso posso repetir, não ame seus filhos de forma igual, ame eles de formas diferentes. 


Também discordo dos “causos” de famílias que quando precisam comprar o presente de aniversário de um filho, e se sentem na obrigação de comprar para os outros filhos, com a justificativa de não se sentirem injustiçados (ou por outra justificativa qualquer). O fato é que a vida é muitas vezes injusta e precisamos ser resilientes e isso é uma ótima oportunidade para se exercitar isso com os pequenos (trabalhar com as frustrações), nem todos serão vencedores, tão pouco serão vencedores sempre. E quanto mais cedo entenderem que cada um tem o seu momento, será mais fácil que isso esteja introjetado para o futuro, e que entendam também que nem tudo é injustiça, mas apenas pluralidade. 


O outro motivo (penso eu) é que todo membro da família tem o direito de ser o centro em algum momento daquele núcleo, sem que isso tenha que se tornar uma crise entre os outros atores daquela história, pois não deve ser estimulada uma competição burra, quase um pomar propício ao cultivo dos invejosos. Pois hoje é só um presente de aniversário, mas amanhã pode ser a aprovação do vestibular ou a aquisição de um emprego, e aí? Será que ele vai torcer pelo irmão ou vai achar que está sendo injustiçado, pois foram tratados como a mesma pessoa? Se o meu irmão tem, logo, eu quero também e essa regra não é aplicável, nem num âmbito genético, quiçá em outras esferas.


Aproveitando o gancho do exemplo acima é uma ótima oportunidade também para que aprendam a comemorar os momentos (e as vitórias) de outras pessoas. Saber que não é o centro das atenções (sempre) e que os outros membros também têm sua importância e por isso merecem ser comemorados. Principalmente entre irmãos, que deveriam ser seus grandes amigos para a vida inteira, mas muitas vezes são estimulados a terem um pensamento de disputas ao invés de serem estimulados a se cooperarem, sendo estimulados pelos pais intencionalmente  ou não.


Concluo que tratar seus filhos de forma diferente seja de bom grado, não é tratar pessoas melhores ou piores, mas que o afeto não seja uma repetição inconsciente, mas sim, que ele seja personalizado para cada membro da família respeitando suas particularidades e que isso seja um dos  primeiros passos para que seus filho entenda a singularidade, mas sem perder de vista a importância do cooperativismo.


Tiago André Marques Malta

CRP: 05/38560

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quarta-feira, 4 de maio de 2022

Mentira (não) tem perna Curta


Mentira (não) tem perna Curta

 

Mais cedo ou mais tarde você vai se dar conta que seu filho sabe mentir, pode ser quando ele estiver com 7 anos ou só quando chegar 20 anos, não importa, ainda assim será um baque. E não sejamos inocentes ou hipócritas colocando como se só os filhos dos outros mentissem, muito menos que somos exemplos do que se refere a verdade absoluta, mentimos, mentimos para os nossos filhos em relação às nossas crenças e no que temos fé. Mentimos para nossos colegas quando respondemos que “estamos bem” quando não estamos. Mentimos quando temos pressa. Mentimos, mentimos e mentimos.

 

Mas quando é o outro que mente para nós? E aí? E quando quem mente para nós é alguém que amamos? Salvo os casos de mitomania, ninguém mente sem um motivo, por isso primeiro precisamos entender o porquê da criança estar mentindo, os principais motivos são por imitação e por pressão social (incluindo medo de desapontar).

 

Na primeira opção a resolução é que precisamos dar melhores exemplos para os nossos filhos. Não adianta querermos que os nossos filhos sejam exemplos para a sociedade quando nós não somos. Neste instante eu imagino que você estará justificando suas próprias mentiras, mas que isso não se aplicaria às crianças. Minha opinião sobre isso: Bullshit! Ou num bom português, isso é balela! Seja a melhor versão de você para que seu filho seja a melhor versão dele.

 

No segundo caso é um pouco mais complicado, pois aquele que mente não se sente bem por estar mentindo, não há uma referência para isso, mas sim o medo de decepcionar, o medo das consequências de sabermos a verdade.  E viver com medo não é bom, não é bom para qualquer ser vivo sencientes, animais acuados tendem a reagir, é o bom e velho mecanismo de luta e fuga, mentir é uma fuga. Assumir a verdade é uma luta, e numa situação perigosa, que nesse caso, para as crianças é nos decepcionar, muitas vezes é menos doloroso fugir, principalmente quando os pais não sabem lidar com a verdade.

 

“Então quer dizer que você está botando a culpa nos pais? ”


Sim e não, é óbvio que cada pessoa é um indivíduo singular e que toma suas próprias decisões e blá, blá, blá e todo esse papo Sartreano. Mas voltando ao “decepcionar”. Como você reage a decepção do seu filho? Será que você aceita o fato dele não ser perfeito? Hoje em dia, se fala tanto para que as crianças tenham atitudes resilientes, mas será que você pratica a resiliência quando quem erra é o seu filho? Será que você aceita que seu filho irá te decepcionar, pois ele não está aqui para realizar suas expectativas (mesquinhas ou egoístas) e que não é o fim do mundo.


E é mesquinho querer que seu filho se torne o que você não conseguiu ser. É egoísmo querer que ele siga os mesmos trilhos de sua jornada. Eles não estão aqui para isso, e pasmem eles, como todos os outros seres vivos estão aqui para errar e evoluir e aprender com os próprios erros, e é nosso dever proporcionar um ambiente que aceite isso o suficiente para que ele sinta-se à vontade de não mentir para você quando ele não for suficiente.


Então primeiramente comece a ser resiliente para enfrentar certas verdades inconvenientes que seus filhos possam trazer para seu sistema de valores. O problema é seu se você queria que ele tirasse nota 10 em geografia, era você que queria, talvez esse não seja os objetivos primários dele. Aproveitando o gancho, será que você sabe quais são as prioridades do seu filho? Talvez devesse comemora-las quando se alcança em vez de só cobrar as suas. 

 

Voltando a mentira, sei que é algo preocupante e eu diria até arriscado, pois hoje ele pode contar uma mentirinha sobre ter ou não ter trabalho de casa, mas amanhã pode ser sobre algo bem mais grave, então o que devemos praticar é a confiança, quando souber que ele está mentindo não faça rodeios para retirar verdade dele, fale de forma franca e objetiva que você sabe que ele está mentindo. Também é bom enfatizar que não adianta apenas punir da forma mais severa possível, a rede da confiança foi abalada, e ele deve ser tecida de novo. Recapitulando a frase, pegue leve, não vai ser castigando que na próxima vez ele vai pensar duas vezes antes de mentir. Na verdade, uma punição mais severa reforça cada vez mais o comportamento mentiroso. Ele precisa ter a confiança que seus pais vão entender quando ele não for perfeito, e que pode falar qualquer assunto com vocês abertamente.

 

Esse texto me fez lembrar de uma música do Evandro Mesquita que foi gravada pela Xuxa em seu primeiro álbum. O nome da música é “Garoto Problema” e fala sobre um garoto que é pressionado pela família a se padronizar e ele foge de casa. Como falei um pouco acima, comportamento de Luta e Fuga. Mas quando volta para casa ele não se sente acolhido apenas leva um esporro e nas palavras do próprio cantor,


“Mas por dentro nem liga

Vai fugir de novo, sem deixar recado”.

 

Tiago André Marques Malta

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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Experiencie, não deixe outros cuidarem do seu filho por você

Experiencie, não deixe outros cuidarem do seu filho por você

Tudo que está ocorrendo com o  seu filho neste exato momento será muito importante para o seu desenvolvimento futuro. Aquele jogo de celular, seus desenhos favoritos com seus personagens favoritos, suas brincadeiras, gostos e afins. Lembre -se de que tudo é impermanente, pois seus desejos e manias podem mudar de forma cíclica ou aleatória, mesmo assim eles criam marcas, pegadas e cicatrizes na história daquela pequena pessoinha em formação . A verdade é que grande parte do que ele está vivenciando hoje, está sendo internalizado. E quando ele internalizar cada pequena coisinha que está vivenciando no aqui agora, onde vai estar inserido sua participação?


Imagina que o seu filho quer te mostrar de qualquer jeito alguma grande descoberta que ele fez, e que para você não tem a menor relevância. E ele insiste, e insiste, e insiste mais uma vez, até o ponto de você se alterar e mostrar como você está “ocupado”. Eu aposto que o que ele queria te mostrar não ia demorar alguns minutos. E sua grande ocupação era pagar mais uma vez a conta de luz (que não está atrasada), que você poderia pagar logo em seguida, ou refogar o arroz que você está careca de fazer, ou explicar pela quinta vez para aquele possível cliente de como funciona o serviço, e o pior, ele não vai fechar com você. E o que pode ficar internalizado para a criança é que “qualquer rotina é mais importante que eu”. Acontece que afetos assim como contas podem vencer, pessoas precisam de tanto tempero tanto quanto o arroz e seu filho precisa de tanta atenção como o seu cliente.


Agora vamos voltar ao exemplo anterior quando o seu filho pede sua atenção. Só para variar, que tal em vez de ignorá-lo pela quinta vez, você responde de primeira “filho o papai  está ocupado, espera só um minuto, que eu já vou ver com você” ou diga assim “ajuda o papai terminar que eu vou lá com você” ou simplesmente levante a bunda do sofá e vá com ele ver o que deseja. Pode ser que realmente o que você está realizando precisa de uma atenção maior e é necessário se concentrar, mas se esse for o caso, eu sugiro que avise antes de começar a tarefa (eles entendem mais quando são comunicados do que você pode imaginar); outro ponta é que é mais fácil você perceber e alcançar as necessidades dos seus filhos,  do que ele as suas. O pior é que muitas vezes você está mentindo para você mesmo, e só está rastreando algo para assistir ou rolando a telinha do celular. Não seja egoísta cara, levante-se e vá ver o que ele precisa.


Essa última questão deveria ter um livro dedicado exclusivamente a ele, mas só pra te dar um pouco de choque de realidade, zapear a televisão ou ficar descendo a timeline da rede social não te fará mais feliz. Isso é só um anestésico de toda a ausência que você experiência do mundo real. Só que não tem aparelho conhecido com processador suficiente para suprir essa falta. E não estou aqui para dar um discurso anti-tecnologia, adoro ver filmes na Netflix e conversar com meus amigos virtuais. A tecnologia deveria servir pra isso para aproximar as pessoas, mas muitas vezes estamos deixando a tela rolar apenas para matar o tempo. E se você trata  o tempo como quem deve ser assassinado, eu acho que na verdade o agora está te fazendo mal, então sugiro negociar com ele para que se tornem parceiros. Não deixem que a tecnologia se transforme em ópio e sim que seja como trilhos, e que nos caminhos que ela te levar, espero que esteja junto com a sua família.


Participe das experiências cotidianas do seu filho, por mais que você ache chato aquela nova saga do pokémon, a questão não deve ser essa. Mas sim o que o seu filho acha (e você pode dar sua opinião, sem desmerecer a dele). Será que você pode frear um pouquinho para ouvi-lo para falar de suas novidades? Quanto ele merece de sua atenção? Essas sim são as questões cernes para você entender e repensar que em cada experiência que seu filho quiser a sua presença, esteja presente, e entenda que até isso será impermanente pois chegará um momento que ele não irá mais partilhar assim com você tão facilmente. Só lembrando que não precisa partilhar com ninguém suas respostas, basta que seja para você mesmo para depois podermos voltar à primeira questão sugerida: E quando ele internalizar cada pequena coisinha que está vivenciando no aqui agora, onde você estará inserido?


Tiago André Marques Malta

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Fonte da imagem:  VitalikRadko

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Essa Responsabilidade é Minha também


Essa Responsabilidade é Minha também


Pentear o cabelo (detesto), ensinar a soltar pipa (nem sei soltar), falar sobre sexo (Essa eu sei), cortar as unhas (essa eu sou fera), ensinar a usar o abridor de latas (fácil-fácil), falar sobre drogas (estou apto), quais as responsabilidades devem ser exercidas pelos papais ou mamães? Será que existem habilidades que que  só podem ser exercidas por um dos pais ou  “qualquer um dos dois” seria a melhor resposta?


Responsabilidade é uma palavrinha um tanto Grande e com um peso maior ainda, ela tem sua origem na palavra em latim respondere que nada mais é que uma pessoa que é capaz de responder por alguma coisa (o chamado do herói)  e nisso nosso papel de pai se encaixa muito bem, nós respondemos pelos atos de nossos filhos, tanto diretamente como também indiretamente.


Responsabilidade compartilhada esta é uma tendência que se fala hoje em dia, e resumindo em poucas palavras “é entender que não há divisões entre papéis exercidos por papais ou pelas mamães.”  A responsabilidade deve ser exercida com o primeiro que visualiza a questão, ou, aquele que está mais “apto” para isso, mas independente do sexo , tais papéis não deveriam ser impostos e tão pouco deveriam ser empurrados para seu parceiro ou parceira. 


Exemplificando: o seu filho precisa resolver algum problema, então resolva por ele, ajude-o a resolver ou o monitore para que na próxima vez ele consiga resolver sozinho.  Não deixe passar uma situação x sem se importar, não o ignore (isto é cruel) e não espere que outro vá resolver as questões de seu filho.  Não estou falando para ser orgulhoso, acreditando que a família é uma ilha e que  você consegue ter todas as respostas na ponta da língua, mas é estar sempre atento, ter sempre um olhar com atenção, tensão e tesão,  afinal se algo der errado você poderá culpabilizar quem? Terceiros?


Então comece pelo mais simples, você é um referencial para ele (ou pode começar a ser ou pode voltar a ser), você é um espelho para ele, você é um tipo de super-herói (só que mais legal) e às vezes é até mais forte que o Superman, afinal, você é tangível, salva o dia e ainda pode dar um beijinho de boa noite. 


Por isso, sugiro que sempre tente dar bons exemplos, mesmo que às vezes você saiba que não é o melhor dos exemplos, afinal somos seres falhos, mas mesmo assim ele ainda vai ser a pessoa que mais vai ter um olhar positivo e entusiasmado sobre você, ele e sua esposa (ou marido) são a sua maior torcida.


Um pouco mais acima coloquei a palavra “Apto” entre aspas, pois em diversos casos recomendo que o menos apto exerça a função de responsabilidade. Afinal mamães e papais, não sabemos como será o dia de amanhã e esteja sempre preparado para se virarem em dois. Treine seus pontos fracos e ensine ao seu parceiro(a) os seus pontos fortes. Não estou querendo ser fatalista, mas sim realista, existem fatalidades, existem mudanças de rotinas e responsabilidades, existem separações e existem momentos que você pode estar curtindo sozinho com o seu filho, e nessa hora você deverá resolver a situação.


Um assunto que aconselho é que ambos respondam  sobre questões ligadas à educação sexual, para que a criança possa criar uma visão dicotômica sobre o tema e tire suas próprias conclusões, vendo duas perspectivas sobre um tema tão delicado, mas tão importante para a formação de valores de uma pessoa. 


E apesar da palavra responsabilidade, ter em sua essência um significado quase laboral, também somos responsáveis pelo que há de melhor nessa palavra,  resumindo: Lazer. Você tem o direito de se divertir com seu filho, você tem o direito de ir ao cinema com ele, você tem o direito de sentar no chão e desenhar com ele, você tem o direito de pegar uma carona no universo dele e apresentar o seu universo para ele e essa parte da responsabilidade é extremamente prazerosa. Enfim, entenda que não há só flores, mas também não são só espinhos, detesto pentear o cabelo do Lucas, mas se precisar eu faço, mas tem tantas outras coisas que adoro fazer com e para ele (como cozinhar) e essa é a jornada de uma família, fazer, ser e estar presente.


Rio de Janeiro 12 de Novembro de 2018

 

Tiago André Marques Malta (CRP 38560)

http://tiago-malta.blogspot.com/ tiagomaltapsi@gmail.com

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Atrás de uma supermãe há um pai ausente


Atrás de uma supermãe há um pai ausente

Resolvi escrever esse texto após ler a publicação que uma amiga de minha esposa (que é mãe solteira) compartilhou, e como pude acompanhar a sua história e seus desdobramentos de um casal de namorados, para um pai que não quis assumir o filho e uma mãe que acabou precisando criar uma criança sozinha com todas as responsabilidades recaindo somente para ela, senti a necessidade de partilhar com vocês, segue o depoimento:

 

“Por favor, não romantizem mães exploradas. Elas não dão conta de tudo porque é legal. Elas dão conta de tudo porque não há outra saída. Elas estão se sacrificando: comprometendo carreira, sanidade e felicidade!


Não é bonito trocar "mãe explorada" por "supermãe". É uma forma de dizer que essas mulheres têm o dever de continuar como estão, exploradas, e que é assim mesmo. Jogar a falta de responsabilidade de um homem na capa superpoderosa de uma "supermãe" é apenas mais uma forma de perpetuar e reforçar que lugar de mulher é cuidando de filho sozinha, sem parceria. Por favor, não façam isso. Vamos trocar o "quem pariu Mateus, que o embale" por "é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança".


Por trás de uma mãe que dá conta de tudo, existe um pai que não exerceu seu papel. ” (Quartinho da Dany) 

 

Romantização, ideação, representação social, não importa a palavra que você queira utilizar, o fato é que há um glamour em uma mãe sobrecarregada de tarefas. Tem circulado na internet vídeos em que Mães fazem exercícios físicos ao mesmo tempo em que cuidam de seus filhos e/ou realizam alguma atividade doméstica. Apesar desses vídeos terem a ideia de mostrar um lado positivo que mulheres conseguem se desdobrar e fazer mais de uma tarefa enquanto cuidam de seus filhos, para mim infelizmente o que parece é que mulheres não podem tirar um tempo para si, não podem tirar um tempo para poder fazer um simples exercício físico sem outras interferências. Não creio que você irá ver um vídeo com um pai malhando junto com seus filhos, pois é importante para ambos os sexos, para ambos os papéis, tirarem um tempo para si. Romantizar que a mulher dá conta de tudo e que tudo é de responsabilidade dela, não faz mais sentido há muito tempo, mas nem todos se deram conta disso.

 

Esse caso que eu peguei em questão é apenas um exemplo de muitos outros casos que ocorrem. Provavelmente você conhece alguma história perto de você, provavelmente você conhece alguma mulher que está sendo explorada e eu coloco aqui o termo “explorada” no sentido mais amplo possível, porque quando só a mulher é responsável por uma pessoa que foi gerada por dois seres humanos eu creio que podemos classificar como exploração, pois para uma situação dessas acontecer há um consenso ou uma conivência da(s) família(s), e há um discurso arcaico que ela tem culpa, me parece que a família acredita que ela e só ela,  é responsável, de que ela se deixou se levar a esta situação. Enquanto ao pai? Qual é o seu papel numa situação dessas?

 

Atrás de um pai que não exerceu seu papel, há todo um constructo até chegar a esta situação problema onde o resultado é “a responsabilidade é unicamente da mãe”. Atrás de um pai que não exerce a sua função há uma sociedade permissiva, há uma cultura do abuso que é passada de geração em geração, há pessoas que fazem parte do Genograma da criança que são coniventes com essa história. Será que você conhece algum caso assim? Será que você não tem algum pensamento maldoso em relação a alguma mulher que está passando por um caso semelhante e você a culpabiliza? Será que você não é amigo de nenhum homem que é ausente com o próprio filho e para você isso não é problema e você aceita como se nada cruel estivesse acontecendo para aquela mulher e para aquela criança?

 

Obs 1: “Quem pariu Mateus, que o embale" não tem uma origem muito bem definida. Porém acredita-se que tenha origem na tradição cristã. “É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança” é um Provérbio Bantu diretamente relacionado à cultura Ubuntu.

 

Obs 2: uma supermãe pode ter ainda seu companheiro ausente dentro de casa e ainda assim este texto serve para este tipo de vivência.

 

Obs 3: Força Ju!!!

 

Tiago André Marques Malta

tiagomaltapsi@gmail.com 


sexta-feira, 21 de junho de 2019

MEDO DE SER PAI



MEDO DE SER PAI


Esse texto é direcionado aos Futuros pais, então antes de mais nada Parabéns, provavelmente você deve estar com algum medo dessa nova fase de sua vida, principalmente por estar ligada a outras vidas, além de uma mistura de ansiedade e expectativa. Eu creio que esse medo esteja relacionado diretamente com o nosso brincar. Brincar não é algo que acontece apenas com filhotes humanos, mas também existe em outras espécies, quando um filhote de felinos está brincando ele está praticando a caça, outros animais como cabras brincam de dar cabeçadas que será útil nos futuros rituais de acasalamento. Agora voltando para o exemplo de nós humanos, enquanto as meninas estão brincando de casinha e cuidando de suas bonecas. Meninos geralmente só se dão conta que um dia serão pais quando já são Homens. E agora?

Primeiro se acalme, até por que você receberá muitos conselhos, alguns bons e outros ruins, recebi conselhos como “isso não é nada demais” e “as pessoas superestimam, isso, é mais fácil que você imagina”. Então antes de mais nada, nesse primeiro baque que “você vai ser pai”, Veja as dicas dos praticantes de Trekking quando estão perdidos com a sigla E.S.A.O.N.: Estacione (pare tudo que estiver fazendo), Sente-se, Alimente-se (ou beba uma água, fume um cigarro), Oriente-Se (planeje o que você tem que fazer), Navegue (agora mão na massa futuro papai). 

Mas quando me pedem algum conselho sobre paternidade, eu já tenho a resposta na ponta da língua que é a seguinte: “você vai receber muitos conselhos, não acreditem em nenhum deles, principalmente nesse que eu te dei”. Parece confuso mas deixa eu explicar, melhor que ouvir outros detentores da sabedoria, observe, observe outros pais (e mães) você tem 9 meses para poder se preparar, só lembrando, que um filho não é só um bebê, ele também é um adolescente, uma criança, um adulto, e não importa a idade ou quão mais alto ele seja que você, ele ainda é seu filho. Logo ser pai é uma tarefa para vida toda, aceite isso e se prepare para o inesperado, pois cada fase são experiências singulares que você não vai encontrar em manual algum.

Por isso tenha medo de ser pai, sentir medo é uma resposta natural de nosso organismo ao inesperado, ela foi uma de nossas aliadas para podermos sobreviver há tanto tempo como espécie. Claro que também não podemos nos entregar ao medo, como já diziam os mestres Jedis, mas deve haver um equilíbrio. Creio que o software de “ser pai” não venha na nossa configuração de fábrica, mas nesse quesito fique tranquilo, pois as atualizações do sistema começam a baixar no dia que você recebe essa notícia.

Rio de Janeiro, 14 de maio de 2018

Tiago André Marques Malta - CRP 38560

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Agendas escolares e outras lugares de Esquecimento.


Quando chego em casa e pego agenda escolar do meu filho para ver algum bilhete ou recado, me causa estranheza o vocativo no início da sentença sempre ser “mamãe”, mas muitas vezes sou eu que leio esta agenda. Será que estou atropelando algum protocolo de quem pode ou não ser presente na vida escolar da criança? Creio que não, é apenas uma das zonas de esquecimento, onde não se percebe que a função pode e deve ser exercida tanto pelo Pai quanto pela Mãe. Não é nenhum mérito ao Pai que é mais presente numa simples agenda escolar, ou demérito a mãe que não assume tais funções. Isso é responsabilidade compartilhada, quem pegou o filho que faça essas honras e pronto. Mas também percebo que o uso de tais vocativos que direcionam a responsabilidade para um ou para o outro, atrapalham. Sei que não é nenhum tipo de plano maléfico para afastar os Papais do convívio de suas crias. Mas quando não há um cuidado mínimo para esses pequenos detalhes, há um direcionamento errôneo para uma representatividade errônea. 

Representatividade, essa é uma palavra boa para esse texto, quando se vê um comercial de Tv com algum produto direcionado para o cuidado das crianças na grande maioria eles têm um enfoque mãe-criança. Logo não me representam em nada. É como se os pais não trocassem fraldas de seus filhos e não soubessem preparar um simples achocolatado. Alguém ainda pode argumentar que os nesse momento do comercial os Pais estão no trabalho e as Mães que cuidam dos filhos. Mas isso é um pensamento arcaico e atrasado. Tanto na relação ser humano e trabalho, onde há um aumento de profissionais liberais e empreendedorismo e jornadas diversas de trabalho, tanto como se mulheres ainda só tivessem essa perspectiva de serem cuidadoras do lar, e passando por último e o mais importante para esse texto “Quem disse que não damos banho nos nossos filhos? Que disse que não cuidamos deles e somos apenas provedores da comida que está na mesa?”

Para finalizar esse texto (e não o assunto) reflitam sobre o cinema e quando há um pai tendo de ficar a sós com seus filhos, ou quando são pais separados. Os mesmos não sabem cuidar dos seus, não sabem preparar nada nutritivo e ao mesmo tempo saboroso e muito menos conhecem seus próprios filhos. Claro que o mundo não é um mar de rosas (ou será que é?). Mas tais estereótipos ajudam para que futuros pais tenham medo dessa nova fase de vida, distorcem uma igualdade que homens e mulheres podem exercer na criação dos seus filhos e criam falácias que justificam por qual motivo numa agenda escolar não tem um bilhete direcionado para ambos os responsáveis. Não sei se isso é um novo paradigma na criação das Futuras gerações, só sei que conheço muitos pais, que são presentes e que não enxergam essas tais divisões de funções, também não precisamos de estrelinhas como pessoas exemplares, só queremos nosso lugar, somos pais e estamos aqui pelos nossos filhos e nada mais.

Rio de Janeiro, 10 de Junho de 2018 

Tiago André Marques Malta - CRP 38560